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Respeito com as Crianças!          

          Respeito com os Adolescentes!

 

Como classificar os patrões que...       

 

Com 7 anos eu comecei a trabalhar. A mulher tinha duas filhas, que não faziam nada em casa. Eu fazia tudo. E ainda apanhava. Além disso tinha um bebezinho e eu tinha que cuidar dele e fazer as coisas sem reclamar. Quando eu fazia uma coisa malfeita, ela começava a me esculhambar. Dizia que eu não prestava para trabalhar na casa dela. (Depoimento de uma menina de 16 anos, trabalhadora doméstica em Belém/PA.)

 

"Quase ninguém repara na menina que deixa sua família para trabalhar em casa de terceiros. É normal criança pobre trabalhar para ajudar em casa. É normal menina virar doméstica pois, no Brasil, serviço de casa é serviço de mulher e se aprende desde pequena. A menina começa ajudando a mãe, cuidando do bebê de uma tia, e logo vai trabalhar na casa da vizinha.

O trabalho infantil doméstico é invisível, pois acontece entre quatro paredes. Ninguém sabe se a menina trabalha o dia todo, se vai à escola, se é bem tratada. Não dá para saber. O lar brasileiro é inviolável, por lei. Nem o Estado pode entrar numa casa sem o consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou por determinação judicial."

 

 

Se eu pudesse escolher eu não trabalharia, só estudaria, porque é muito cansativo... eu falto às aulas, às vezes não dá para fazer o dever de casa ... Esse trabalho prejudica a minha infância porque eu quase não brinco, prejudica a minha saúde porque dói a minha coluna. (Menina de 12 anos, trabalhadora doméstica em Belo Horizonte/MG.)

 

"Que vida é essa que tira a boneca do colo da menina e a substitui por um bebê de verdade? A maioria das meninas, ainda muito novas, são contratadas para trabalhar como babás e acabam acumulando muitas outras tarefas domésticas. Brincar de casinha, nunca mais. Daí para a frente é cuidar da casa para valer.

O trabalho doméstico é um jeito perigoso de brincar de gente grande. Existe o risco de queimaduras, de cortes com facas e de acidentes com produtos químicos. Dentre as meninas ouvidas durante as pesquisas promovidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2001, 36% afirmam ter sofrido algum acidente de trabalho ou apresentam algum sintoma relacionado a ele. Elas falam muito em dor de cabeça, dores musculares e nas costas. E tornam-se adultas precocemente, queimando etapas da infância, fundamentais para o desenvolvimento sadio e harmonioso."     

 

 

Quando eu era criança, eu e minhas irmãs trabalhávamos na casa dos vizinhos, a gente lavava louça em troca de comida... Com oito ou nove anos eu não entendia certas coisas, por exemplo, como esses dois senhores (os vizinhos) pediam para mim deixar eles pegarem no meu corpo... Eles me davam R$ 1,00 e eu deixava, eu não sabia direito o que era e eu queria comprar comida lá pra casa. (Menina de 13 anos, trabalhadora doméstica, em Belém/PA.)

Sempre que você é um trabalhador assim, você não faz o que quer, né, tem que ser na rédea... tudo na rédea da patroa, do jeito dela, do gosto dela. Desse jeito a gente se perde da gente e passa a viver só a vida deles. (Menina de 15 anos, trabalhadora doméstica no Recife/PE.)

 

"O trabalho infantil doméstico oculta relações ambígüas. Uma família que não é uma família, uma casa que não é um lar, uma mulher que pega a menina 'para criar' e faz dela criada... A agressão física e o assédio sexual são casos extremos, mas acontecem: dentre as meninas pesquisadas nas cidades de Belém, Recife e Belo Horizonte, 4% afirmaram terem sido objeto de maus-tratos.

Mas o que é ser maltratada? As meninas costumam contar casos de agressões físicas e xingamentos. Em geral, esquecem que o trabalho também maltrata o corpo. Que ficar o dia todo à disposição, sem ter tempo para si mesma e para fazer amigos faz um mal danado. É quase tão ruim como ter saudades dos pais e só poder telefonar para casa quando a patroa deixa. Esses tipos de violência, tão pouco comentados mas tão presentes no dia-a-dia, fazem a menina construir uma imagem distorcida de si mesma, de alguém de pouco valor e com poucos direitos."     

 

 

A minha infância tem duas cores: verde e preto. O verde era quando minha família me levava para a praça para brincar com as outras crianças. O preto foi quando eu tinha 8 anos, a minha mãe ficou doente, não tinha condições de criar os 5 filhos e distribuiu as crianças para a casa dos parentes. (Menina de 16 anos, trabalhadora doméstica em Belo Horizonte/MG.)

 

"A pesquisa da Organização Internacional do Trabalho realizada em 2001 nas cidades de Belém, Recife e Belo Horizonte, envolveu 1.029 meninas trabalhadoras domésticas. A grande maioria deixou a família para trabalhar em casa de terceiros entre 10 e 13 anos de idade. A separação precoce impede que a menina construa sua identidade e fortaleça seus vínculos afetivos, ao lado da família e dos amigos, na sua comunidade.

Sem se darem conta disso, os próprios pais acabam entregando as meninas para outra família, na esperança de uma vida melhor. Legalmente, isto até seria possível, se a nova família assumisse a 'guarda' da criança, conforme estabelecido no ECA. Ser um tutor ou guardião de uma criança significa assumir uma série de obrigações, como assistência material, moral e educacional e tratá-la como filha. O que acontece, principamente na região Nordeste, é uma 'adoção' informal das crianças, que nada tem a ver com isso. As meninas acabam se transformando em trabalhadoras domésticas e muitas vezes nem freqüentam a escola, ficando isoladas da comunidade. Na casa 'adotiva', o isolamento se perpetua, pois elas são tratadas de forma absolutamente diferenciada das outras crianças da família."     

 

 

Se eu pudesse escolher, a minha vida não teria tantas dificuldades... a minha escola seria a mais linda, com computador para os alunos poderem aprender a usar. Se eu pudesse não trabalhar, eu só estudaria. (Menina de 15 anos, trabalhadora doméstica em Belém/PA.)

Na minha opinião, um bom patrão ou patroa deveria reconhecer os meus direitos, os direitos que eu tenho, o direito de receber um salário. E que soubesse a hora de eu ir para a escola. (Menina de 16 anos, trabalhadora doméstica em Belo Horizonte/MG.)

 

"Quanto maior o tempo no trabalho doméstico, maior é o índice de atraso escolar. Muitos fatores contribuem para isso: a longa jornada de trabalho, o cansaço que atrapalha o estudo e o fato de que, muitas vezes, o cumprimento das tarefas domésticas é usado como moeda de troca: 'Se não acabar o serviço, não vai para a escola'.

Por tudo isso, meninas que moram no emprego têm escolaridade menor do que aquelas que não moram, e quem começou trabalhando como doméstica tem, em média, 1,6 ano de estudo a menos do que quem começou em outras ocupações.

O que faz a situação ainda mais perversa é o fato de a escolaridade da mãe ser um fator determinante do trabalho infantil doméstico: a proporção de meninas que trabalham diminui com o aumento da escolaridade da mãe. E assim, a baixa escolaridade acaba sendo passada de mãe para filha, perpetuando a pobreza."     

 

       ... motivaram depoimentos tão comoventes?   

 

Você classificaria esses patrões de insensíveis?   Ou de quê?...       



Os depoimentos e os comentários transcritos nesta página foram extraídos da publicação "Neste Município Criança Não Trabalha", realização da OIT, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente (http://www.fundabrinq.org.br/) e da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) (http://www.andi.org.br/).

Essa publicação lança um novo olhar sobre o trabalho infantil doméstico, mostrando como ele fere os direitos garantidos pela Constituição Brasileira e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente; como ele prejudica a educação e o crescimento das crianças trabalhadoras. E como contribui para transmitir a pobreza de geração para geração.

Mostra também que os municípios são espaços privilegiados para identificar o trabalho infantil doméstico, para sensibilizar as famílias e para criar políticas públicas capazes de evitar a inserção precoce das meninas no trabalho e proteger as trabalhadoras domésticas adolescentes.

A OIT/IPEC, a Fundação Abrinq e a ANDI estão juntas na mobilização para o enfrentamento do trabalho infantil doméstico, e convidam todos os prefeitos do país a se engajarem nesta causa, em defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes dos seus municípios.     

À vista de tudo o que leu, você saberá, se for o caso, classificar-se e, se for o caso ainda, poderá mudar - para melhor, claro! - tudo na vida da criança ou do adolescente que tem a seu serviço.

Talvez saiba também classificar um vizinho, parente, amigo, enfim uma pessoa que você conheça e que explora o trabalho de uma criança ou de um adolescente. Como parcela considerável da geração atual não aprendeu sequer a jogar lixo em lixeiras (joga-o no chão), igualmente não aprendeu, no veículo de transporte coletivo, a pedir licença a quem se juntará no assento, e por aí vai, você pode estar percebendo que não adiantará gastar o verbo com ele ou ela (vizinho, parente, etc.) para mudar a vida dessa criança ou desse adolescente.

Por isso, você tem a possibilidade de fazer a sua denúncia pelo Portal do Ministério Público do Trabalho, clicando aqui (caminho: home > Item do Menu à direita da página, em "Serviços ao Cidadão" - "Denúncia"). Caso deseje manter sua identidade em sigilo, saiba, já, que isso é possível.

A propósito, não deixe de ler trechos extraídos da obra de MARIA ZUÍLA LIMA DUTRA, Meninas Domésticas, Infâncias Destruídas : Legislação e Realidade Social.

E assista ao vídeo (de 1 minuto e 14 segundos) feito por Ted Bastos, Luiz Claudio Vianna e Diego Freitas, alunos da UNAMA, pela AMI - Amigos da Infância e para campanha contra o trabalho infantil no Estado do Pará (postado no Gisele Bündchen Blog pela Equipe Übersite, às 16h36 de 26/5/2008).     

 



AMADURECIMENTO DA RELAÇÃO DE TRABALHO DOMÉSTICO.
PENSE NISSO... PENSE MESMO... PENSE SEMPRE!


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